Lucro ou dinheiro em caixa? Porque a empresa fatura bem e não sobra dinheiro

Lucro ou dinheiro em caixa Porque a empresa fatura bem e não sobra dinheiro

Lucro e liquidez são conceitos diferentes. O lucro mede se a atividade é rentável, comparando rendimentos e gastos; a liquidez mede se a empresa tem dinheiro disponível para pagar os seus compromissos. É, por isso, perfeitamente possível uma empresa ter lucro e, ao mesmo tempo, quase não ter dinheiro em caixa.

“A empresa fatura bem, mas não percebo porque é que sobra tão pouco dinheiro no final do mês.” Esta é uma dúvida frequente entre empresários e gestores de PME, e a razão está precisamente na diferença entre resultado contabilístico e disponibilidade financeira.

Lucro contabilístico e liquidez não são a mesma coisa

Lucro contabilístico

Liquidez

O que mede A rentabilidade da atividade A disponibilidade de dinheiro
O que considera Rendimentos e gastos reconhecidos Entradas e saídas de dinheiro
Quando existe Pode existir antes de o cliente pagar Depende do dinheiro efetivamente recebido
Para que serve Perceber se o negócio é rentável Perceber se a empresa consegue pagar os seus compromissos

É precisamente por esta diferença que faturar mais não significa necessariamente ter mais dinheiro em caixa.

Um exemplo prático: uma fatura de 30.000 €

Imagine uma PME de serviços que presta um serviço no valor de 30.000 €, isento de IVA, e emite a respetiva fatura a um cliente. O cliente tem um prazo de pagamento de 60 dias.

A empresa já realizou o serviço e a venda está refletida na sua contabilidade. No entanto, os 30.000 € ainda não entraram na conta bancária.

Entretanto, a empresa continua a ter despesas:

  • Salários e encargos: 12.000 €
  • Renda e instalações: 1.500 €
  • Software e outros serviços: 1.500 €
  • Fornecedores e restantes custos: 3.000 €

Neste exemplo, existem 18.000 € de custos, enquanto os 30.000 € faturados continuam por receber. O lucro desta operação corresponde a 12.000 €, mas isso não significa que a empresa tenha 12.000 € disponíveis no banco.

A empresa pode, assim, apresentar um resultado positivo e, simultaneamente, ter de utilizar o dinheiro que já tinha disponível para pagar as despesas correntes. Uma parte do dinheiro está nas contas a receber de clientes; outra parte será necessária para suportar os custos da atividade e as obrigações fiscais e financeiras da empresa.

Como pode existir lucro sem dinheiro disponível?

Existem várias situações que explicam esta diferença.

Clientes que pagam tarde

A empresa pode faturar hoje e receber apenas daqui a 30, 60 ou 90 dias. Quanto maior for o prazo de recebimento, maior pode ser a pressão sobre a tesouraria.

Crescimento da empresa

O aumento da faturação pode obrigar a contratar colaboradores, aumentar instalações, adquirir equipamentos ou suportar outros custos antes de os novos clientes pagarem. Por isso, crescer pode aumentar as necessidades de tesouraria.

Investimentos

A aquisição de equipamentos ou outros ativos pode representar uma saída significativa de dinheiro no momento da compra, enquanto o respetivo impacto contabilístico pode ser distribuído ao longo do tempo.

Financiamentos e outras obrigações

Os pagamentos de empréstimos, impostos, salários e fornecedores também consomem liquidez. O saldo bancário disponível num determinado momento pode, por isso, estar já parcialmente comprometido com pagamentos futuros.

Saldo bancário não é dinheiro disponível

Outro erro frequente é considerar que o saldo da conta bancária corresponde ao dinheiro que a empresa pode utilizar livremente.

Imagine que a empresa tem 25.000 € no banco, mas nos próximos dias terá de pagar:

  • Salários e encargos: 12.000 €
  • Renda e instalações: 1.500 €
  • Software e outros serviços: 1.500 €
  • Fornecedores e restantes custos: 3.000 €

O saldo de 25.000 € não representa, na realidade, 25.000 € disponíveis para gastar ou investir. Uma parte significativa já está destinada a compromissos assumidos, neste caso, 18.000 €.

Da mesma forma, uma entrada de dinheiro na conta não significa necessariamente que a empresa tenha gerado lucro. Um financiamento bancário ou um aumento de capital, por exemplo, aumenta a liquidez, mas não representa um resultado positivo da atividade.

O que deve acompanhar a gestão?

Para perceber a verdadeira situação financeira da empresa, não basta acompanhar a faturação ou o saldo bancário. É importante acompanhar, em conjunto:

  1. Rentabilidade. A atividade está a gerar lucro? As margens são suficientes para suportar a estrutura de custos?
  2. Tesouraria. Quanto dinheiro está disponível e quais são as entradas e saídas previstas?
  3. Contas a receber. Quanto é que os clientes devem à empresa e quando está previsto o recebimento?
  4. Compromissos futuros. Que salários, fornecedores, impostos, financiamentos e outros pagamentos terão de ser assegurados?

Esta análise permite perceber se uma empresa que apresenta bons resultados tem também capacidade financeira para cumprir os seus compromissos.

Erros comuns a evitar

  • Confundir saldo bancário com lucro. Ter dinheiro no banco não significa que a empresa está a ser rentável, nem que esse dinheiro está livre de compromissos.
  • Não acompanhar os prazos de recebimento dos clientes. Uma fatura emitida não é dinheiro em caixa; sem controlar quando os clientes efetivamente pagam, é fácil ser surpreendido por falta de liquidez.
  • Tratar um financiamento como se fosse resultado da atividade. Um empréstimo ou um aumento de capital melhora a tesouraria, mas não representa lucro gerado pelo negócio.
  • Crescer sem preparar a tesouraria. Contratar, investir ou expandir antes de garantir que a empresa aguenta o período até os novos clientes pagarem pode gerar aperto financeiro mesmo com boas vendas.

Perguntas frequentes sobre lucro e liquidez

O que é mais importante para uma empresa: lucro ou liquidez? 

Os dois são importantes, mas para perguntas diferentes. O lucro diz se o negócio é rentável a médio prazo; a liquidez diz se a empresa consegue pagar os seus compromissos no imediato. Uma empresa pode falhar por falta de liquidez mesmo sendo lucrativa.

É possível uma empresa ter prejuízo e, ainda assim, ter liquidez positiva?

Sim. Uma empresa pode ter dinheiro disponível vindo de um financiamento, de um aumento de capital ou de vendas anteriores, mesmo que o resultado do período seja negativo.

Como posso melhorar a liquidez da empresa sem aumentar o lucro? 

Reduzindo os prazos de recebimento de clientes, negociando prazos de pagamento mais longos com fornecedores, ou adiando investimentos que não sejam urgentes.

O que é o mapa de tesouraria e para que serve? 

É um documento que regista as entradas e saídas de dinheiro previstas para os próximos períodos, permitindo antecipar momentos em que a empresa possa ficar com pouca liquidez.

Um financiamento bancário aumenta o lucro da empresa? 

Não. Aumenta a liquidez disponível, mas não é um rendimento da atividade e não entra no cálculo do lucro contabilístico.

Uma fatura de 30.000 € representa uma venda. Não significa que a empresa tenha imediatamente 30.000 € disponíveis, sendo que o lucro desta operação corresponde a 12.000 €.

O dinheiro pode estar por receber de clientes, comprometido com despesas, destinado a impostos, aplicado em investimentos ou a financiar o crescimento da empresa.

Por isso, quando surge a sensação de que “a empresa fatura bem, mas não sobra dinheiro”, é importante analisar duas questões distintas: a empresa está a gerar lucro, e a empresa tem liquidez suficiente para cumprir os seus compromissos?

A resposta a estas duas perguntas permite ter uma visão muito mais completa da situação financeira da empresa e tomar decisões de gestão com maior segurança.

Aguardamos o seu contacto!

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